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domingo, 29 de julho de 2012

Harry Potter e a câmera secreta - capitulo 2

— CAPÍTULO CINCO —
O SALGUEIRO LUTADOR


O FIM DAS FÉRIAS DE VERÃO chegou muito depressa para o gosto de Harry. Ele estava ansioso para regressar a Hogwarts, mas aquele mês na Toca fora o mais feliz de sua vida. Era difícil não ter inveja de Rony quando pensava nos Dursley e no tipo de boas-vindas que poderia esperar na próxima vez que aparecesse na Rua dos Alfeneiros.
Na última noite de férias, a Sra. Weasley fez aparecer um jantar suntuoso que incluiu todos os pratos favoritos de Harry, terminando com um pudim caramelado de dar água na boca. Fred e Jorge encerraram a noite com uma queima de fogos Filibusteiro; encheram a cozinha de estrelas vermelhas e azuis que ricochetearam do teto para as paredes durante no mínimo uma hora. Então chegou a hora da última caneca de chocolate quente e de ir para a cama.
Eles demoraram para viajar na manhã seguinte. Acordaram ao nascer do sol, mas por alguma razão pareciam ter um bocado de coisas para fazer. A Sra. Weasley corria de um lado para outro mal-humorada, procurando meias desaparelhadas e penas de escrever; as pessoas não paravam de dar encontrões nas escadas, meio vestidas, levando pedaços de torradas nas mãos; e o Sr. Weasley quase quebrou o pescoço, ao tropeçar em uma galinha solta quando atravessava o quintal carregando o malão de Gina até o carro.
Harry não conseguiu imaginar como é que oito pessoas, seis malões, duas corujas e um rato iam caber em um pequeno Ford Anglia. É claro que ele não contara com os acessórios especiais que o Sr. Weasley acrescentara.
— Nem uma palavra a Molly — cochichou ele a Harry quando abriu a mala do carro e lhe mostrou como a aumentara por artes mágicas para que a bagagem coubesse sem problemas.
Quando finalmente todos tinham embarcado no carro, a Sra. Weasley olhou para o banco traseiro, onde Harry, Rony, Fred, Jorge e Percy estavam sentados confortavelmente lado a lado e disse:
— Os trouxas sabem mais do que nós queremos reconhecer, não é? — ela e Gina entraram no banco dianteiro que fora aumentado de tal maneira que parecia um banco de jardim público — Quero dizer, olhando de fora, a pessoa nunca imaginaria como o carro é espaçoso, não é?
O Sr. Weasley ligou o motor e saiu do quintal, enquanto Harry se virava para trás para dar uma última olhada na casa. Mal teve tempo para pensar quando a veria outra vez e já estavam de volta: Jorge esquecera a caixa de fogos Filibusteiro. Cinco minutos depois, tornaram a parar no quintal para Fred ir buscar depressa sua vassoura. Tinham quase chegado à rodovia quando Gina gritou que deixara o diário em casa. Na altura em que tornaram a embarcar no carro eles já estavam muito atrasados e muito mal-humorados.
O Sr. Weasley olhou para o relógio e depois para a sua mulher.
— Molly, querida...
— Não, Artur.
— Ninguém veria. Esse botãozinho aqui é um multiplicador de invisibilidade que instalei, isso nos faria decolar e voar acima das nuvens. Estaríamos lá em dez minutos e ninguém saberia...
— Eu disse não, Arthur, não em plena luz do dia.
Eles chegaram à estação de King´s Cross às quinze para onze. O Sr. Weasley disparou até o outro lado da rua para buscar carrinhos para a bagagem e todos correram para a estação.
Harry tomara o Expresso de Hogwarts no ano anterior. A parte complicada era chegar à Plataforma Nove e Meia, que não era visível aos olhos dos trouxas. O que a pessoa tinha que fazer era atravessar uma barreira sólida que separava as plataformas 9 e 10. Não machucava, mas tinha que ser feito com cautela, de modo que os trouxas não vissem a pessoa desaparecer.
— Percy primeiro — disse a Sra. Weasley, consultando nervosa o relógio no alto, que indicava que tinham apenas cinco minutos para desaparecer pela barreira sem ser vistos.
Percy adiantou-se com passos firmes e desapareceu.
O Sr. Weasley o seguiu; depois Fred e Jorge.
— Vou levar Gina e vocês dois venham logo atrás de nós — disse a Sra. Weasley a Harry e Rony, agarrando a mão de Guia e se afastando.
Num piscar de olhos as duas tinham desaparecido.
— Vamos juntos, só temos um minuto — disse Rony a Harry.
Harry verificou se a gaiola de Edwiges estava bem encaixada em cima do malão e virou o carrinho de frente para a barreira. Sentia-se absolutamente confiante; isto não era nem de longe tão desconfortável quanto usar o Pó de Flu. Os dois se abaixaram sob a barra dos carrinhos e avançaram decididos para a barreira, ganhando velocidade. Quando faltavam apenas poucos passos eles desataram a correr e...
TAPUM.
Os dois carrinhos bateram na barreira e quicaram de volta; o malão de Rony caiu com estrondo, Harry foi derrubado, a gaiola de Edwiges saiu saltando pelo chão encerado e ela rolou para fora, gritando indignada; as pessoas à volta olharam e um guarda próximo berrou:
— Que diabo vocês acham que estão fazendo?
— Perdi o controle do carrinho — ofegou Harry, apertando as costelas ao se levantar.
Rony teve que recolher Edwiges, a coruja fazia tanto escândalo que muitos dos circunstantes resmungaram contra a crueldade para com os animais.
— Por que não podemos atravessar? — sibilou Harry para Rony.
— Não sei...
Rony olhou desorientado para os lados. Uns dez curiosos continuavam a observá-los.
— Vamos perder o trem — cochichou Rony — Não entendo por que o portão se fechou...
Harry olhou para o enorme relógio no alto com uma sensação ruim na boca do estômago. Dez segundos... nove segundos... ele levou o carrinho à frente com cautela até encostá-lo na barreira e empurrou-o com toda a força. O metal continuou sólido. Três segundos... dois segundos... um segundo...
— Já foi — disse Rony, parecendo atordoado — O trem foi embora. E se papai e mamãe não conseguirem voltar para nós? Você tem algum dinheiro de trouxas?
Harry deu uma risada cavernosa.
— Os Dursley não me dão dinheiro há uns seis anos.
Rony encostou o ouvido na barreira fria.
— Não ouço nada — informou tenso — Que vamos fazer? Não sei quanto tempo vai levar para mamãe e papai voltarem.
Eles olharam para os lados. As pessoas continuavam a vigiá-los, principalmente por causa dos gritos de Edwiges que não paravam.
— Acho que é melhor irmos esperar ao lado do carro — sugeriu Harry — Estamos atraindo atenção demais...
— Harry! — exclamou Rony, com os olhos brilhando — O carro!
— Que tem o carro?
— Podemos voar para Hogwarts no carro!
— Mas eu pensei...
— Estamos imobilizados, certo? E temos que voltar para a escola, não é? E até os bruxos de menor idade podem usar a magia quando há uma emergência grave, seção dezenove ou coisa assim da Lei de Restrição ao...
— Mas sua mãe e seu pai... — disse Harry, empurrando mais uma vez a barreira na esperança inútil de que ela cedesse — Como é que vão chegar em casa?
— Eles não precisam do carro! — disse Rony impaciente. — Eles sabem aparatar, sabe, desaparecer aqui e reaparecer em casa! Eles só usam o Pó de Flu e o carro porque somos todos menores e ainda não temos permissão para aparatar.
A sensação de pânico de Harry de repente se transformou em excitação.
— Você sabe voar?
— Não tem problema — disse Rony, virando o carrinho de frente para a saída — Anda, vamos. Se nos apressarmos poderemos seguir o Expresso de Hogwarts.
Passaram então pela aglomeração de trouxas curiosos, saíram da estação e voltaram à rua secundária onde ficara estacionado o velho Ford Anglia. Rony destrancou a enorme mala do carro com vários toques seguidos de varinha. Tornaram a carregar a bagagem na mala, puseram Edwiges no banco traseiro e embarcaram.
— Veja se não tem ninguém olhando — disse Rony, ligando a ignição com outro toque de varinha.
Harry meteu a cabeça para fora da janela: o tráfego roncava pela estrada principal adiante, mas a rua deles estava deserta.
— Tudo bem — falou.
Rony apertou um botãozinho prateado no painel. O carro em que estavam desapareceu... e eles também. Harry sentiu o banco vibrar embaixo dele, ouviu o ruído do motor, sentiu as mãos em cima dos joelhos e os óculos em cima do nariz, mas do que conseguia ver, virara um par de olhos que flutuavam acima do chão, numa rua suja cheia de carros estacionados.
— Vamos — disse a voz de Rony vindo da direita.
E o chão e os edifícios sujos de cada lado se distanciaram e foram desaparecendo de vista, à medida que o carro decolava; em segundos, Londres inteira estava lá embaixo, enfumaçada e cintilante. Então ouviu-se um estampido e o carro, Harry e Rony, reapareceram.
— Epa! — exclamou Rony, batendo no botão da invisibilidade — Está com defeito.
Os dois socaram o botão.
O carro desapareceu. E tornou a reaparecer aos pouquinhos.
— Segure firme! — berrou Rony e pisou fundo no acelerador; eles dispararam em linha reta para dentro de nuvens baixas e repolhudas e tudo ficou cinzento e enevoado.
— E agora? — perguntou Harry, piscando diante da camada sólida de nuvens que os comprimia de todos os lados.
— Temos que ver o trem para saber que direção vamos tomar — disse Rony.
— Mergulhe outra vez... depressa.
Eles baixaram até ficar sob as nuvens e se viraram no banco, tentando ver o solo.
— Estou vendo! — gritou Harry — Bem na nossa frente, lá.
O Expresso de Hogwarts ia correndo embaixo deles como uma cobra vermelha.
— Rumo norte — disse Rony, verificando a bússola no painel — Tudo bem, só vamos precisar verificar de meia em meia hora mais ou menos, segure firme... — E eles dispararam para o alto, furando as nuvens. Um minuto depois, saíram numa camada banhada de sol.
Era um mundo diferente.
Os pneus do carro roçavam de leve o mar de nuvens fofas, o céu um azul forte e infinito sob um sol claro de cegar...
— Agora só temos que nos preocupar com os aviões — disse Rony.
Eles se entreolharam e caíram na gargalhada; durante algum tempo não conseguiram parar. Era como se tivessem mergulhado num sonho fabuloso. Isto, pensou Harry, Era sem dúvida o único modo de viajar: deixando para trás os redemoinhos e as torrinhas de nuvens branquíssimas, em um carro inundado pela luz quente e clara do sol, com um pacotão de caramelos no porta-luvas, e a perspectiva de ver as caras invejosas de Fred e Jorge quando eles aterrissassem, suave e espetacularmente, no vasto gramado diante do castelo de Hogwarts.
Eles verificavam regularmente a posição do trem durante o vôo que os levava cada vez mais para o norte e, em cada mergulho abaixo das nuvens, descortinavam uma paisagem diferente. Londres não tardou a ficar muito para trás, substituída por campos verdes e geométricos que, por sua vez, cederam lugar a grandes extensões de terra roxa, pantanosa, uma metrópole que pululava de carros que lembravam formigas multicoloridas, cidadezinhas com igrejas de brinquedo.
Várias horas tranqüilas depois, no entanto, Harry teve que admitir que o divertimento estava começando a cansar. Os caramelos tinham deixado os dois cheios de sede e não havia nada para beber. Ele e Rony tinham despido os suéteres, mas a camiseta de Harry estava grudando no encosto do banco, e seus óculos não paravam de escorregar pela ponta do nariz suado. Ele deixara de reparar nas formas fantásticas das nuvens e agora pensava com saudades no trem, quilômetros abaixo, onde podia comprar suco de abóbora bem gelado em um carrinho empurrado por uma bruxa gorducha.
Porque não tinham podido chegar à Plataforma 9 e ½?
— Não pode faltar muito mais, não é? — perguntou Rony rouco, horas depois, quando o sol começou a afundar pelo chão de nuvens, tingindo-o de rosa forte — Pronto para verificar outra vez a posição do trem?
O trem continuava embaixo deles, contornando uma montanha de pico nevado. Escurecera bastante sob a abóbada de nuvens. Rony pisou fundo no acelerador e fez o carro subir outra vez, mas ao fazer isto, o motor começou a soltar um silvo agudo.
Harry e Rony trocaram olhares apreensivos.
— Provavelmente ele está cansado — disse Rony — Nunca foi tão longe antes...
E os dois fingiram não notar o ruído que ficava cada vez mais forte, à medida que o céu ia escurecendo cada vez mais. As estrelas espocavam na escuridão.
Harry tornou a vestir o suéter, tentando fingir que não via que os limpadores do pára-brisa agora se moviam devagar, como se protestassem.
— Falta pouco — disse Rony mais para o carro do que para Harry — Falta pouco agora — e deu umas palmadinhas nervosas no painel.
Quando voltaram a voar sob as nuvens um pouco mais tarde, tiveram que apurar a vista na escuridão para encontrar um marco que conhecessem.
— Ali! — gritou Harry, sobressaltando Rony e Edwiges — Bem em frente!
Recortado no horizonte escuro, no alto do penhasco sobre o lago, estavam as torres e torrinhas do castelo de Hogwarts.
Mas o carro começara a tremer e a perder velocidade.
— Vamos — disse Rony em tom de quem quer adular, dando uma sacudidela no volante — Quase chegamos, vamos...
O motor gemia. Finos penachos de fumaça saíam por debaixo do capô. Harry viu-se agarrando as bordas do banco com toda força ao voarem em direção ao lago. O carro deu um estremeção feio. Ao espiar pela janela, Harry viu a superfície lisa, escura e espelhada da água, um quilômetro e meio abaixo. Os nós dos dedos de Rony estavam brancos de tanto apertar o volante. O carro estremeceu outra vez.
— Vamos — murmurou Rony.
Sobrevoaram o lago... o castelo estava bem à frente... Rony apertou o acelerador. Ouviu-se uma batida metálica e alta, um engasgo e o motor morreu de vez.
— Epa! — exclamou Rony, em meio ao silêncio.
O nariz do carro afundou. Estavam caindo, ganhando velocidade, rumando direto para a parede maciça do castelo.
— Nããâââao! — berrou Rony, dando um golpe de direção; erraram o escuro muro de pedra por centímetros, porque o carro descreveu um grande arco e voou sobre as estufas às escuras, depois sobre a horta e depois sobre os gramados sombrios, perdendo altura todo o tempo.
Rony largou de vez o volante e puxou a varinha do bolso traseiro.
— PARE! PARE! — berrou, golpeando o painel e o pára-brisa, mas eles continuaram a mergulhar, o chão voando ao seu encontro...
— CUIDADO COM AQUELA ÁRVORE! — urrou Harry, atirando-se sobre o volante, mas tarde demais...
CREQUE.
Com um estrondo de ensurdecer, de metal batendo em madeira, eles colidiram com um tronco avantajado e despencaram no chão com um baque forte. O vapor que saía por baixo do capô amassado formava nuvens enormes. Edwiges guinchava de terror; um galo do tamanho de uma bola de golfe latejou na cabeça de Harry onde ele batera no pára-brisa e, à sua direita, Rony deixou escapar um gemido baixo e desesperado.
— Você está bem? — perguntou Harry com urgência na voz.
— Minha varinha — respondeu Rony com a voz trêmula — Olhe a minha varinha.
Ela quase se partira em duas; a ponta balançava inerte, segura apenas por meia dúzia de farpas de madeira.
Harry abriu a boca para dizer que tinha certeza de que poderiam consertá-la na escola, mas nem chegou a falar. Naquele mesmíssimo instante, alguma coisa bateu na lateral do carro com a força de um touro furioso, atirando Harry contra Rony, ao mesmo tempo que outra pancada igualmente pesada atingia o teto.
— Que está acontecen... — exclamou Rony, arregalando os olhos para o pára-brisa, enquanto Harry virava a cabeça em tempo dever um galho grosso como uma jibóia que o amassava.
A árvore em que tinham batido atacava os dois. Curvara o tronco quase ao meio e seus ramos nodosos socavam cada centímetro do carro que conseguiam alcançar.
— Caracas! — exclamou Rony quando outro ramo retorcido fez uma grande mossa na porta do lado dele.
O pára-brisa agora vibrava sob uma saraivada de golpes aplicados por galhinhos em forma de nós, e um galho grosso como um aríete socava furiosamente o teto, que parecia estar afundando...
— Se manda! — gritou Rony, atirando todo o peso contra a porta, mas no segundo seguinte ele era empurrado de volta contra o colo de Harry por um direto no queixo dado por outro galho — Estamos perdidos! — gemeu ele quando o teto afundou, mas de repente o fundo do carro começou a vibrar, o motor pegara outra vez.
— Dê marcha ré — berrou Harry, e o carro disparou para trás; a árvore continuava a tentar atingi-los; ouviam as raízes rangerem como se se rasgassem, tentando golpeá-los enquanto se afastavam dela a toda.
— Essa — ofegou Rony — Foi por pouco. Muito bem, carro.
O carro, porém, chegara ao limite de suas forças. Com dois fortes trancos, as portas se escancararam e Harry sentiu o banco deslizar para um lado. No momento seguinte ele se viu estatelado no chão úmido. Pancadas fortes lhe informaram que o carro estava ejetando a bagagem deles da mala; a gaiola de Edwiges voou pelos ares e se abriu, ela soltou um guincho raivoso e voou veloz para o castelo, sem nem ao menos olhar para trás.
Então, amassado, arranhado e fumegando o carro saiu roncando pela escuridão, as lanternas traseiras brilhando com raiva.
— Volte aqui! — gritou Rony para o carro, brandindo a varinha partida — Papai vai me matar!
Mas o carro desapareceu de vista com uma última gargalhada do cano de descarga.
— Dá para acreditar na nossa sorte? — disse Rony infeliz, abaixando-se para recolher Perebas — De todas as árvores em que podíamos ter batido, tínhamos que bater nessa querevida?
Ele espiou por cima do ombro a velha árvore, que continuava a agitar os ramos ameaçadoramente.
— Vamos — disse Harry cansado — É melhor irmos logo para a escola...
Não se pareceu nada com a chegada triunfal que eles tinham imaginado. Os músculos duros, enregelados e contundidos, os dois apanharam as alças dos malões e começaram a arrastá-los pela encosta gramada acima, em direção à imponente porta de entrada de carvalho.
— Acho que a festa já começou — comentou Rony, largando a mala ao pé dos degraus da entrada e indo espiar silenciosamente por uma janela iluminada — Ei, Harry vem ver, é a Seleção!
Harry correu à janela e juntos, ele e Rony contemplaram o Salão Principal.
Uma quantidade de velas pairava no ar sobre as quatro mesas compridas e lotadas, fazendo os pratos e taças de ouro faiscarem. No alto, o teto encantado, que sempre refletia o céu lá fora, pontilhado de estrelas. Em meio à floresta de chapéus cônicos de Hogwarts, Harry viu uma longa fila de principiantes de cara assustada entrar no Salão. Gina estava entre eles, facilmente identificável pelos cabelos da família Weasley, muito vívidos.
Entrementes a Profª. McGonagall, uma bruxa de óculos que usava os cabelos presos em um coque, estava colocando o famoso Chapéu Seletor sobre um banquinho diante dos recém-chegados.
Todo ano, aquele chapéu antigo, remendado, esfiapado e sujo, selecionava os novos alunos para as quatro casas de Hogwarts (Grifinória, Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina). Harry lembrava-se bem da noite em que o colocara na cabeça, exatamente há um ano, e esperara petrificado, a decisão do chapéu que murmurava audivelmente em seu ouvido. Por alguns segundos terríveis ele receara que o chapéu fosse colocá-lo na Sonserina, a casa de onde saía um número maior de bruxos e bruxas das trevas do que de qualquer outra. Mas ele acabara indo para a Grifinória, junto com Rony, Hermione e o resto dos Weasley. No último trimestre letivo, Harry e Rony tinham ajudado a Grifinória a ganhar o Campeonato das Casas, vencendo Sonserina pela primeira vez em sete anos.
Um garoto muito pequeno, de cabelos castanho-acinzentados foi chamado para colocar o chapéu na cabeça. O olhar de Harry passou por ele e foi pousar no lugar em que Dumbledore, o diretor, assistia à cerimônia sentado à mesa dos funcionários, sua longa barba prateada e os óculos de meia-lua brilhando à luz das velas. Vários lugares adiante, Harry viu Gilderoy Lockhart, com suas vestes azuis. E lá na ponta sentava-se Hagrid, enorme e peludo, bebendo grandes goles de sua taça.
— Espere aí... — cochichou Harry para Rony — Há uma cadeira vaga na mesa dos funcionários... onde está o Snape?
Severo Snape era o professor de que Harry menos gostava. Por acaso Harry era o aluno de quem Snape menos gostava também. Cruel, irônico e detestado por todo mundo, exceto pelos alunos de sua própria casa (Sonserina), Snape ensinava Poções.
— Vai ver ele está doente! — disse Rony esperançoso.
— Vai ver ele foi embora — disse Harry — Porque não conseguiu o lugar de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas outra vez!
— Ou vai ver foi despedido! — disse Rony entusiasmado — Quero dizer, todo mundo o detesta...
— Ou vai ver — disse uma voz muito seca atrás deles — Está esperando para saber por que vocês dois não chegaram no trem da escola.
Harry virou-se depressa. Ali, as vestes negras ondeando à brisa gelada, achava-se parado Severo Snape. Era um homem magro, com a pele macilenta, um nariz curvo e cabelos negros e oleosos até os ombros e, naquele momento, sorria de um jeito que dizia a Harry e Rony que eles estavam numa baita encrenca.
— Me acompanhem — disse Snape.
Sem nem ousarem se entreolhar, Harry e Rony seguiram Snape pela escada e entraram no enorme saguão cheio de ecos, iluminado por tochas. Um cheiro delicioso de comida vinha do Salão Principal, mas Snape os levou para longe do calor e da luz e desceu uma estreita escada de pedra que levava às masmorras.
— Para dentro! — disse ele, indicando a porta que abrira no corredor frio.
Eles entraram na sala de Snape, trêmulos. As paredes sombrias estavam cobertas de prateleiras com grandes frascos, em que flutuava todo tipo de coisa nojenta de que, naquele momento, Harry nem queria saber o nome. A lareira estava apagada e vazia. Snape fechou a porta e virou-se para encará-los.
— Então — disse com suavidade — O trem não é bastante bom para o famoso Harry Potter e seu leal escudeiro Weasley. Queriam chegar acontecendo, não foi, rapazes?
— Não, senhor, foi a barreira na estação de King´s Cross, ela...
— Silêncio — disse Snape secamente — Que foi que fizeram com o carro?
Rony engoliu em seco. Não era a primeira vez que Snape dava a Harry a impressão de ser capaz de ler pensamentos. Mas um momento depois, ele compreendeu, quando Snape desdobrou o Profeta Vespertino daquele dia.
— Vocês foram vistos — sibilou o professor, mostrando a manchete: FORD ANGLIA VOADOR INTRIGA TROUXAS.
E começou a ler em voz alta:

       Dois trouxas em Londres, convencidos de terem visto um velho carro sobrevoar a Torre dos Correios... ao meio-dia em Norfolk, a Sra. Hetty Bayliss, quando pendurava roupa para secar... O Sr. Angus Fleet, de Peebles, comunicou à policia...

— Um total de seis ou sete trouxas. Acredito que o seu pai trabalha no departamento que coíbe o mal uso de artefatos dos trouxas? — perguntou ele, erguendo os olhos para Rony com um sorriso ainda mais desagradável — Tsk, tsk, tsk... o próprio filho dele...
Harry teve a sensação de que acabara de levar um direto no estômago, aplicado por um dos ramos mais parrudos da árvore maluca. Se alguém descobrisse que o Sr. Weasley havia enfeitiçado o carro... não tinha pensado nisso...
— Reparei na minha busca pelo parque que houve considerável dano a um Salgueiro Lutador muito valioso — continuou Snape.
— Aquela árvore causou mais dano a nós do que nós a... — deixou escapar Rony.
— Silêncio! — disse Snape outra vez — Infelizmente vocês não fazem parte da minha Casa, e a decisão de expulsá-los não cabe a mim. Vou buscar as pessoas que têm este prazeroso poder. Esperem aqui.
Harry e Rony se entreolharam pálidos.
Harry não sentia mais fome. Sentia-se extremamente enjoado. Tentou não olhar para uma coisa grande e pegajosa que estava suspensa em um liquido verde, em uma prateleira atrás da escrivaninha de Snape. Se Snape tivesse ido buscar a Profª. McGonagall, Diretora da Casa Grifinória, eles tampouco estariam em melhor situação. Poderia ser mais justa do que Snape, mas era rigorosíssima.
Dez minutos depois, Snape voltou e não deu outra, era a Profª. McGonagall que o acompanhava. Harry já a vira várias vezes, mas ou se esquecera como a boca da professora ficava contraída, ou nunca a vira zangada antes. Ela ergueu a varinha no momento em que entrou. Os dois, Harry e Rony se encolheram, mas ela meramente a apontou para a lareira apagada, onde as chamas irromperam instantaneamente.
— Sentem-se — disse, e os dois recuaram e se sentaram em cadeiras junto à lareira — Expliquem-se — disse, os óculos brilhando agourentos.
Rony saiu contando a história a começar pela barreira da estação que se recusara a deixá-los passar.
—... então não tivemos outra escolha, professora, não podíamos embarcar no trem.
— Por que não nos mandaram uma carta por coruja? Creio que você tem uma coruja? — disse a Profª. McGonagall, olhando para Harry com frieza.
Harry ficou boquiaberto. Agora que ela dissera, parecia a coisa óbvia para ter sido feita.
— Eu... não pensei...
— Isto — tornou a professora — É óbvio.
Ouviu-se uma batida na porta da sala, e Snape, agora com a cara mais feliz que nunca, abriu-a. Parado à porta achava-se o diretor, o Prof. Dumbledore. O corpo de Harry inteiro ficou insensível. Dumbledore parecia anormalmente sério. Olhou por cima daquele nariz curvo dele, e Harry, subitamente, viu-se desejando que ele e Rony ainda estivessem apanhando do salgueiro lutador. Fez-se um longo silêncio. Então Dumbledore disse:
— Por favor, expliquem por que fizeram isso.
Teria sido melhor se tivesse gritado. Harry detestou o desapontamento que havia na voz dele. Por alguma razão, não conseguiu encarar Dumbledore nos olhos e, em vez disso, falou para os próprios joelhos.
Contou a Dumbledore tudo, exceto que o Sr. Weasley era o dono do carro enfeitiçado, fazendo parecer que ele e Rony tinham encontrado o carro voador estacionado do lado de fora da estação, por acaso. Ele sabia que Dumbledore perceberia a coisa na mesma hora, mas o diretor não fez perguntas sobre o carro. Quando Harry terminou, ele apenas continuou a observá-los através dos óculos de meia-lua.
— Vamos buscar as nossas coisas — disse Rony com a desesperança na voz.
— De que é que está falando, Weasley? — vociferou a Profª. McGonagall.
— Bem, os senhores vão nos expulsar, não é? — disse Rony.
Harry olhou rapidamente para Dumbledore.
— Hoje não, Sr. Weasley — disse Dumbledore — Mas preciso incutir em vocês a gravidade do que fizeram. Vou escrever às duas famílias hoje à noite. Devo também preveni-los de que se fizerem isto de novo, não terei escolha se não expulsar os dois.
Snape fez cara de quem acaba de ouvir que o Natal foi cancelado. Pigarreou e disse:
— Prof. Dumbledore, esses garotos zombaram da lei que restringe o uso de magia por menores, causaram sérios danos a uma árvore antiga e valiosa... com certeza atos desta natureza...
— A Profª. McGonagall é quem decidirá sobre o castigo dos meninos, Severo — disse Dumbledore calmamente — Fazem parte da Casa dela e, portanto são responsabilidade dela— e se virou para a professora — Preciso voltar para a festa, Minerva, tenho que dar alguns avisos. Vamos Severo, tem uma torta de abóbora deliciosa que quero provar.
Snape lançou um olhar de puro veneno a Harry e Rony ao se deixar levar embora da sala, deixando-os sozinhos com a Profª. McGonagall, que ainda os observava como uma águia atenta.
— É melhor ir à Ala Hospitalar, Weasley, você está sangrando.
— Não é nada demais — disse Rony, limpando depressa com a manga o corte sobre o olho — Professora, eu queria ver a minha irmã ser selecionada...
— A Cerimônia da Seleção já terminou — respondeu ela — Sua irmã também ficou na Grifinória.
— Ah, que bom.
— E por falar na Grifinória... — disse McGonagall muito ríspida, mas Harry a interrompeu.
— Professora, quando apanhamos o carro, o ano letivo não tinha começado, por isso... por isso Grifinória não deve perder pontos, deve? — terminou ele, observando-a ansioso.
A Profª. McGonagall lançou-lhe um olhar penetrante e ele teve certeza de que elaquase sorrira. Pelo menos ficara menos contraída.
— Não vou tirar pontos da Grifinória — e Harry sentiu o chão muito mais leve — Mas os dois vão receber uma detenção.
Foi melhor do que Harry esperara. Quanto a Dumbledore escrever aos Dursley, isso não era nada. Harry sabia perfeitamente que eles só iriam ficar desapontados que o salgueiro lutador não o tivesse achatado de vez.
A Profª. McGonagall ergueu novamente a varinha e apontou-a para a escrivaninha de Snape. Um grande prato de sanduíches, duas taças de prata e uma jarra de suco de abóbora gelado apareceram com um estalo.
— Vocês vão comer aqui e depois vão direto para o dormitório — disse ela — Eu também preciso voltar à festa.
Quando a porta se fechou, Rony deixou escapar um assobio baixo e longo.
— Achei que estávamos ferrados — disse ele, agarrando o sanduíche.
— Eu também — disse Harry, servindo-se.
— Mas dá para acreditar na nossa falta de sorte? — perguntou Rony com a voz pastosa porque tinha a boca cheia de galinha e presunto — Fred e Jorge devem ter voado naquele carro umas cinco ou seis vezes e nunca nenhum trouxa viu os dois — ele engoliu e deu outra grande dentada — Por que não conseguimos atravessar a barreira?
Harry sacudiu os ombros.
— Mas vamos ter que nos cuidar daqui para frente — disse, tomando um grande gole do suco de abóbora, cheio de gratidão — Gostaria de termos podido ir à festa...
— Ela não queria que fôssemos nos exibir — disse Rony ajuizadamente — Não quer que as pessoas pensem que somos sabidos, porque chegamos de carro voador.
Quando acabaram de comer tudo o que puderam (o prato sempre tornava a se encher sozinho) eles se levantaram e deixaram a sala, tomando o caminho familiar para a Torre da Grifinória. O castelo estava silencioso; parecia que a festa havia acabado. Os dois passaram pelos quadros que resmungavam e as armaduras que rangiam e subiram a estreita escada de pedra, até chegarem, finalmente, à passagem onde se escondia a entrada secreta para a Grifinória, atrás do retrato a óleo de uma mulher muito gorda, de vestido de seda rosa.
— Senha? — perguntou ela quando os dois se aproximaram.
— Ããã... — murmurou Harry.
Eles não sabiam a senha do novo ano, ainda não tinham encontrado o monitor da Grifinória, mas o socorro chegou quase imediatamente; ouviram um tropel de passos às costas e quando se viraram deram com Hermione que corria ao encontro deles.
— Aí estão vocês! Onde se meteram? Os boatos mais ridículos... alguém disse que vocês foram expulsos por terem batido com um carro voador.
— Bem, não fomos expulsos — garantiu-lhe Harry.
— Vocês não vão me dizer que realmente chegaram aqui voando? — disse Hermione, em tom quase tão severo quanto o da Profª. McGonagall.
— Pode poupar o sermão — disse Rony impaciente — E nos dizer qual é a nova senha?
— É “maçarico” — respondeu Hermione impaciente — Mas não é isto que está em questão...
Suas palavras, porém, foram interrompidas, pois o retrato da Mulher Gorda se abriu em meio a uma repentina tempestade de aplausos. Parecia que todos os alunos da Grifinória ainda estavam acordados, espremidos na Sala Comunal redonda, trepados nas mesas fora de esquadro e nas poltronas que afundavam, esperando os dois chegarem. Braços passaram pela abertura do retrato para puxar Harry e Rony para dentro, deixando Hermione subir depois e sozinha.
— Genial! — berrou Lino Jordan — Um achado! Que entrada! Aterrissar um carro voador no salgueiro lutador, vão comentar isso durante anos!
“Parabéns”, disse um quintanista com que Harry nunca falara antes; alguém dava palmadinhas em suas costas como se ele tivesse acabado de ganhar uma maratona.
Fred e Jorge abriram caminho por entre os colegas aglomerados e perguntaram ao mesmo tempo:
— Por que não viemos no carro, hein?
Rony estava com a cara vermelha e sorria constrangido, mas Harry acabava de ver uma pessoa que não parecia nada feliz. Percy era visível por cima das cabeças de uns alunos de primeira série animados, e parecia estar querendo se aproximar o suficiente para começar a ralhar com eles. Harry cutucou Rony nas costelas e fez sinal em direção a Percy.
Rony entendeu na mesma hora.
— Temos que subir... um pouco cansados — disse ele e os dois começaram a abrir caminho em direção à porta do lado oposto da sala, que levava à escada circular e aos dormitórios.
— Noite — Harry falou por cima do ombro para Hermione, que estava com uma cara tão feia quanto Percy.
Os garotos conseguiram chegar ao outro lado da Sala Comunal, ainda recebendo palmadinhas nas costas, e alcançaram a paz das escadas. Subiram a escada correndo, direto para cima e, finalmente, chegaram à porta do antigo dormitório, que agora tinha um letreiro que dizia ALUNOS DE SEGUNDA SÉRIE.
Entraram no quarto circular que já conheciam, com camas de quatro colunas e cortinas de veludo vermelho, e suas janelas altas e estreitas. Seus malões tinham sido trazidos até o quarto e colocados aos pés das camas.
Rony sorriu com ar de culpa para Harry.
— Sei que não devia ter curtido isso nem nada, mas...
A porta do dormitório se escancarou e por ela entraram os outros segundanistas da Grifinória, Simas Finnigan, Dino Thomas e Neville Longbottom.
— Inacreditável!— exclamou Simas radiante.
— Legal! — disse Dino.
— Um assombro! — acrescentou Neville atônito.
Harry não conseguiu se controlar e sorriu também.

sábado, 30 de junho de 2012

Harry Potter e a câmera secreta - capitulo 4

— CAPÍTULO QUATRO —
NA FLOREIOS E BORRÕES


A VIDA NA TOCA era a mais diferente possível da vida na Rua dos Alfeneiros. Os Dursley gostavam de tudo limpo e arrumado; a casa dos Weasley era cheia de coisas estranhas e inesperadas. Harry teve um choque na primeira vez que se mirou no espelho sobre o console da lareira da cozinha, pois o espelho gritou: “Ponha a camisa para dentro, seu desleixado!”. O vampiro no sótão uivava e derrubava canos, sempre que sentia que a casa estava ficando demasiado quieta, e as pequenas explosões que vinham do quarto de Fred e Jorge eram consideradas perfeitamente normais.
Porém, o que Harry achou mais fora do comum na vida em casa de Rony não foi o espelho falante nem o vampiro baterista: mas o fato de que todos pareciam gostar dele.
A Sra. Weasley se preocupava com o estado das meias dele e tentava forçá-lo a repetir a comida três vezes por refeição. O Sr. Weasley gostava que Harry se sentasse ao lado dele, na mesa do jantar, para poder bombardeá-lo com perguntas sobre a vida com os trouxas, pedindo-lhe para explicar como funcionavam coisas como as tomadas e o correio postal.
— Fascinante! — exclamou, quando Harry lhe contou como se usava o telefone — Engenhoso, verdade, quantas maneiras os trouxas encontraram de viver sem o auxílio da magia.
Harry recebeu notícias de Hogwarts, numa bela manhã, cerca de uma semana depois de chegar à Toca. Ele e Rony desceram para tomar café e encontraram o Sr. e a Sra. Weasley e Gina já sentados à mesa da cozinha. No instante em que viu Harry, Gina sem querer derrubou a tigela de mingau no chão fazendo um estardalhaço. A garota parecia muito propensa a derrubar coisas sempre que Harry entrava. Ela mergulhou debaixo da mesa para apanhar a tigela e reapareceu com o rosto rubro como um sol poente.
Harry fingindo não notar, sentou-se e aceitou a torrada que a Sra. Weasley lhe oferecia.
— Cartas da escola — disse o Sr. Weasley, passando a Harry e Rony envelopes idênticos de pergaminho amarelado, endereçados com tinta verde — Dumbledore já sabe que você está aqui, Harry, ele não perde um detalhe, aquele homem. Vocês dois também receberam — acrescentou ele, quando Fred e Jorge entraram descontraídos, ainda de pijamas.
Durante alguns minutos fez-se silêncio enquanto todos liam as cartas. A de Harry mandava-o tomar o Expresso de Hogwarts como sempre na estação de King´s Cross, no dia 1º de Setembro. Trazia também uma lista dos novos livros que ia precisar para o próximo ano letivo.

MATERIAL PARA OS ALUNOS DA SEGUNDA SÉRIE:
§ O Livro Padrão de Feitiços, 2ª Série de Miranda Goshawk.
§ Como Dominar um Espírito Agourento de Gilderoy Lockhart.
§ Como se Divertir com Vampiros de Gilderoy Lockhart.
§ Férias com Bruxas Malvadas de Gilderoy Lockhart.
§ Viagens com Trasgos de Gilderoy Lockhart.
§ Viagens com Vampiros de Gilderoy Lockhart.
§ Passeios com Lobisomens de Gilderoy Lockhart.
§ Um Ano com o Iéti de Gilderoy Lockhart.

Fred, que terminara de ler a lista, deu uma espiada na de Harry.
— Mandaram você comprar todos os livros de Lockhart também! — admirou-se — O novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas deve ser fã dele, aposto que é uma bruxa.
Ao dizer isto, o olhar de Fred cruzou com o de sua mãe e ele rapidamente voltou a atenção para a sua geléia.
— Esse material não vai sair barato — comentou Jorge, lançando um olhar rápido aos pais — Os livros de Lockhart são bem carinhos...
— Daremos um jeito — disse a Sra. Weasley, embora tivesse a expressão preocupada — Espero poder comprar a maioria do material de Gina de segunda mão.
— Ah, você vai entrar para Hogwarts este ano? — perguntou Harry a Gina.
Ela confirmou com a cabeça, corando até a raiz dos cabelos flamejantes e enfiou o cotovelo na manteigueira. Felizmente ninguém viu exceto Harry porque, naquele momento, o irmão mais velho de Rony, Percy, entrou na cozinha. Já estava vestido, o distintivo de monitor de Hogwarts preso no suéter sem mangas.
— Dia — disse Percy animado — Lindo dia.
Sentou-se na única cadeira desocupada, mas quase imediatamente levantou-se de um salto, erguendo do assento um espanador de penas cinzentas que parecia estar na muda... pelo menos foi isso que Harry pensou que fosse, até ver que a coisa respirava.
— Errol — exclamou Rony, recolhendo a coruja inerte da mão de Percy e extraindo uma carta que ela trazia presa sob a asa — Finalmente chegou a resposta de Hermione. Escrevi a ela avisando que íamos tentar salvar você dos Dursley.
Ele levou Errol até um poleiro na porta dos fundos e tentou fazê-lo encarrapitar-se, mas a coruja tornou a desmontar, por isso Rony a deitou na tábua de escorrer, resmungando“Patético”.
Em seguida ele abriu a carta de Mione e leu-a em voz alta.

Queridos Rony e Harry, se estiver aí.

         Espero que tudo tenha corrido bem, que Harry esteja bem e que você não tenha feito nada ilegal para tirá-lo de lá, Rony, porque isso criará problemas para o Harry também. Tenho estado realmente preocupada e, se Harry estiver bem, por favor, mande me dizer logo, mas talvez seja melhor usar outra coruja, porque acho que mais uma entrega talvez mate essa.
         Estou muito ocupada, estudando, é claro...

— Como é que pode! — exclamou Rony horrorizado — Estamos de férias!

        E vamos a Londres na próxima quarta-feira comprar os livros novos. Porque não nos encontramos no Beco Diagonal? Mande notícias do que está acontecendo, assim que puder.
        Afetuosamente,

        Mione.

— Bom, isso se encaixa perfeitamente. Podemos ir comprar todo o material de vocês, também — disse a Sra. Weasley, começando a tirar a mesa — Que é que vocês estão planejando fazer hoje?
Harry, Rony, Fred e Jorge estavam pensando em subir o morro até um pequeno prado que pertencia aos Weasley. Era cercado de árvores que bloqueavam a visão da cidadezinha embaixo, o que significava que podiam praticar Quadribol lá, desde que não voassem muito alto. Não podiam usar bolas de Quadribol de verdade, pois seria difícil explicar se escapulissem e sobrevoassem a cidade; em vez disso, atiravam maçãs uns para os outros. Revezaram-se para montar a Nimbus 2000 de Harry, que era, sem nenhum favor, a melhor vassoura; a velhaShooting Star de Rony muitas vezes perdia na corrida para as borboletas que apareciam.
Cinco minutos depois os garotos estavam subindo o morro, as vassouras nos ombros. Tinham perguntado a Percy se queria acompanhá-los, mas ele respondera que estava ocupado. Harry até ali só tinha visto Percy às refeições; ele passava o resto do tempo trancado no quarto.
— Gostaria de saber o que ele está aprontando — disse Fred, franzindo a testa — Está tão mudado. O resultado das provas dele chegou um dia antes de você; doze N.O.M.s e ele nem cantou vitória.
— Níveis Ordinários em Magia — explicou Jorge, vendo o olhar intrigado de Harry — Gui recebeu doze também. Se não nos cuidarmos vamos ter outro monitor-chefe na família. Acho que não iríamos suportar a vergonha.
Gui era o filho mais velho dos Weasley. Ele e o irmão logo abaixo, Carlinhos, já tinham terminado Hogwarts. Harry nunca vira nenhum dos dois, mas sabia que Carlinhos estava na Romênia estudando dragões e Gui, no Egito, trabalhando no banco dos bruxos, o Gringotes.
— Não sei como mamãe e papai vão poder comprar todo o nosso material escolar este ano — disse Jorge depois de algum tempo — Cinco conjuntos de livros do Lockhart! E Gina precisa de vestes, uma varinha e todo o resto...
Harry não disse nada. Sentiu-se um pouco constrangido. Guardado no cofre subterrâneo do Banco de Gringotes, em Londres, havia uma pequena fortuna que seus pais lhe haviam deixado. Naturalmente, era somente no mundo dos bruxos que ele tinha dinheiro; não se podia usar galeões, sicles e nuques em lojas de trouxas. Ele nunca mencionara aos Dursley sua conta no Banco de Gringotes, pois achava que o horror que eles tinham à magia não se estenderia a um montão de ouro.
A Sra. Weasley acordou-os bem cedo na quarta-feira seguinte. Depois de comerem rapidamente uma dúzia de sanduíches de bacon cada um, eles vestiram os casacos e a Sra. Weasley apanhou um vaso de flor no console da cozinha e espiou dentro dele.
— Estamos com o estoque baixo, Arthur — suspirou — Teremos que comprar mais hoje... ah, muito bem, hóspedes primeiro! Pode começar, Harry querido!
E ela lhe ofereceu o vaso de flor.
Harry olhou para os Weasley, que o observavam.
— Q-que é que eu tenho que fazer? — gaguejou.
— Ele nunca viajou com Pó de Flu — disse Rony de repente — Desculpe Harry, eu me esqueci.
— Nunca? — admirou-se o Sr. Weasley — Mas como foi que você chegou ao Beco Diagonal para comprar seu material escolar no ano passado?
— Fui de metrô...
— Verdade? — exclamou o Sr. Weasley animado — Havia escapadas rolantes? Como é que...
— Agora não, Arthur — disse a Sra. Weasley — O Pó de Flu é muito mais rápido, querido, mas meu Deus, se você nunca o usou antes...
— Ele vai conseguir, mamãe — disse Fred — Harry observe a gente primeiro.
Fred apanhou uma pitada de pó brilhante no vaso de flor, foi até a lareira e atirou o pó no fogo. Com um rugido, as chamas ficaram verde-esmeralda e mais altas do que Fred, que entrou nelas e gritou “Beco Diagonal!” e desapareceu.
— Você precisa falar bem claro, querido — disse a Sra. Weasley a Harry quando Jorge mergulhou a mão no vaso — E se certifique se está saindo na grade certa...
— Na o quê certa? — perguntou Harry nervoso enquanto as chamas rugiam e arrebatavam Jorge de vista.
— Bem, há um número enorme de lareiras de bruxos para você escolher, sabe, mas se você falar com clareza...
— Ele vai acertar, Molly, não se preocupe — disse o Sr. Weasley, servindo-se de Pó de Flu, também.
— Mas, querido, se ele se perder, como é que iríamos explicar à tia e ao tio dele?
— Eles não se importariam — tranqüilizou-a Harry — Duda ia achar que teria sido uma piada genial se eu me perdesse dentro de uma lareira, não se preocupe.
— Bem... está bem... você vai depois de Arthur — disse a Sra. Weasley — Agora, quando entrar no fogo, diga aonde vai...
— E mantenha os cotovelos colados ao corpo — aconselhou.
— E os olhos fechados — recomendou a Sra. Weasley — A fuligem...
— Não se mexa — disse Rony — Ou pode acabar caindo na lareira errada... mas cuidado para não entrar em pânico e sair antes da hora. Espere até ver Fred e Jorge.
Harry, fazendo força para guardar tudo isso na cabeça, apanhou uma pitada de Pó de Flu e avançou até a beira do fogo. Inspirou profundamente, lançou o pó nas chamas e entrou; o fogo lhe lembrou uma brisa morna; ele abriu a boca e imediatamente engoliu um monte de cinzas quentes.
— B-be-co Diagonal — tossiu.
A sensação de estar sendo sugado por um enorme ralo. Ele parecia estar girando muito rápido. O rugido em seus ouvidos era ensurdecedor... e tentou manter os olhos abertos, mas o rodopio das chamas verdes lhe dera enjôo... uma coisa dura bateu no seu cotovelo e ele o prendeu com firmeza junto ao corpo, sempre girando... agora a sensação era de mãos geladas esbofeteando seu rosto... apertando os olhos por trás dos óculos ele viu uma sucessão de lareiras indistintas e relances de aposentos além... os sanduíches de bacon reviravam em sua barriga...
Ele tornou a fechar os olhos desejando que aquilo parasse e então... caiu de cara no chão, em cima de uma pedra fria e sentiu a ponta dos óculos se partir.
Tonto e machucado, coberto de fuligem, ele se levantou desajeitado, segurando os óculos partidos na frente dos olhos. Estava totalmente sozinho, mas onde estava ele não fazia idéia. Só sabia dizer que estava de pé numa lareira de pedra, em um lugar que parecia ser uma loja de bruxo grande e mal-iluminada: mas nada que havia ali tinha a menor probabilidade de aparecer numa lista de material escolar de Hogwarts.
Um mostruário próximo continha uma mão murcha em cima de uma almofada, um baralho manchado de sangue e um olho de vidro arregalado. Máscaras diabólicas o espiavam das paredes, uma variedade de ossos humanos jazia sobre o balcão e instrumentos pontiagudos e enferrujados pendiam do teto.
E o que era pior, a rua estreita e escura que Harry via pela vitrine empoeirada da loja decididamente não era Beco Diagonal.
Quanto mais cedo saísse dali melhor. Com o nariz ainda doendo por causa da batida na lareira, Harry se encaminhou depressa e silenciosamente para a porta, mas antes que cobrisse metade da distância, duas pessoas apareceram do outro lado da vitrine... e uma delas era a última pessoa que Harry queria encontrar estando perdido, coberto de fuligem, com os óculos partidos: Draco Malfoy.
Harry olhou depressa a toda volta e viu um grande armário preto à esquerda; correu para ele e se fechou dentro, deixando apenas uma frestinha na porta para espiar. Segundos depois, uma sineta tocou e Malfoy entrou na loja. O homem que entrou atrás dele só podia ser o pai. Tinha a mesma cara fina e pontuda e olhos idênticos, frios e cinzentos.
O Sr. Malfoy andou pela loja examinando descansadamente os objetos expostos e tocou uma campainha em cima do balcão antes de se virar para o filho e dizer:
— Não toque em nada, Draco.
Malfoy, que esticara a mão para o olho de vidro, retrucou:
— Pensei que você ia me comprar um presente.
— Eu disse que ia lhe comprar uma vassoura de corrida — disse o pai tamborilando no balcão.
— De que me serve uma vassoura se não faço parte do time da Casa? — respondeu Malfoy, com a cara amarrada — Harry Potter ganhou uma Nimbus 2000 no ano passado. Permissão especial de Dumbledore para ele poder jogar pela Grifinória. Ele nem é tão bom assim, só que é famoso... famoso por ter uma cicatriz idiota na testa...
Malfoy se abaixou para examinar uma prateleira cheia de crânios.
— Todo mundo acha que ele é tão sabido, o maravilhoso Potter com sua cicatriz e sua vassoura...
— Você já me contou isso no mínimo dez vezes — disse o Sr. Malfoy, com um olhar de censura para o filho — E gostaria de lembrar-lhe que não é, prudente, demonstrar que não gosta de Harry Potter, não quando a maioria do nosso povo acha que ele é o herói que fez oLorde das Trevas desaparecer... ah, Sr. Borgin.
Um homem curvado aparecera atrás do balcão, alisando os cabelos untados de óleo para afastá-los do rosto.
— Sr. Malfoy, que prazer revê-lo — disse o Sr. Borgin untuoso como os seus cabelos — Encantado, e o jovem Malfoy, também, encantado. Em que posso servi-los? Preciso lhes mostrar, chegou hoje, e a um preço muito módico...
— Não vou comprar nada hoje, Sr. Borgin, vou vender — disse o Sr. Malfoy.
— Vender?
O sorriso se embaçou levemente no rosto do Borgin.
— O senhor ouviu falar, é claro, que o Ministério está fazendo mais blitz — disse o Sr. Malfoy, puxando um rolo de pergaminho do bolso interno do casaco e desenrolando-o para Sr. Borgin ler — Tenho em casa uns, ah, objetos que podem me causar embaraços, se o Ministério aparecesse...
O Sr. Borgin encaixou um pincenê na ponta do nariz e percorreu a lista.
— O Ministério certamente não ousaria incomodá-lo, não é, meu senhor?
O Sr. Malfoy crispou os lábios.
— Até agora não me visitaram. O nome Malfoy ainda impõe um certo respeito, mas o Ministério está ficando cada vez mais intrometido. Há boatos de uma nova lei de proteção aos trouxas: com certeza aquele bobalhão pulguento, apreciador de trouxas, Arthur Weasley, está por trás disso...
Harry sentiu uma onda escaldante de raiva.
—... e como vê, alguns desses venenos poderiam fazer parecer...
— Compreendo, meu senhor, naturalmente — disse o Sr. Borgin — Deixe-me ver...
— Pode me dar aquilo? — interrompeu Draco, apontando para a mão murcha sobre a almofada.
— Ah, a Mão da Glória! — disse o Sr. Borgin, abandonando a lista de Malfoy e correndo para perto de Draco — Ponha-lhe uma vela e ela dá luz apenas a quem a segura! A melhor amiga dos ladrões e saqueadores! O seu filho tem ótimo gosto, meu senhor.
— Espero que o meu filho venha a ser mais do que um ladrão ou um saqueador, Borgin — disse o Sr. Malfoy com frieza, ao que o Sr. Borgin respondeu depressa:
— Sem ofensa, meu senhor, não tive intenção de ofender...
— Mas, se as notas dele não melhorarem — disse o Sr. Malfoy com maior frieza ainda — Pode ser que ele realmente só tenha talento para isto.
— Não é minha culpa — retrucou Draco — Todos os professores têm alunos preferidos, aquela Hermione Granger...
— Pensei que você sentiria vergonha se uma menina que nem pertence a família de bruxos passasse a sua frente em todos os exames — comentou com rispidez o Sr. Malfoy.
— Ha! — exclamou Harry baixinho, satisfeito de ver Draco com cara de quem está ao mesmo tempo envergonhado e aborrecido.
— É a mesma coisa em toda parte — disse o Sr. Borgin, com sua voz untuosa — Ter sangue de bruxo conta cada vez menos em toda parte...
— Não para mim — respondeu o Sr. Malfoy, com as narinas tremendo.
— Não, meu senhor, nem para mim — disse o Sr. Borgin, fazendo uma grande reverência.
— Neste caso, talvez possamos voltar à minha lista — disse o Sr. Malfoy rispidamente — Estou com um pouco de pressa, Borgin, tenho negócios importantes a tratar hoje em outro lugar.
Os dois começaram a barganhar.
Harry observou nervoso que Draco se aproximava cada vez mais do lugar em que ele estava escondido, examinando os objetos à venda. Draco parou para examinar um grande rolo de corda de enforcar e para ler, rindo, o cartão colocado em um magnífico colar de opalas.

Cuidado:
Não toque. Amaldiçoado. 
Tirou a vida de dezenove donos trouxas até hoje.

Draco se virou e notou o armário bem em frente. Adiantou-se... esticou a mão para o puxador e...
— Fechado — disse o Sr. Malfoy ao balcão — Vamos, Draco!
Harry enxugou a testa na manga ao ver Draco se afastar.
— Bom dia para o senhor, Sr. Borgin. Aguardo-o amanhã em casa para apanhar a mercadoria.
No instante em que a porta se fechou, o Sr. Borgin abandonou seus modos untuosos.
— Bom dia para o senhor, Sr. Malfoy, e, se as histórias que correm forem verdadeiras, o senhor não me vendeu metade do que tem escondido em sua casa...
E, continuando a resmungar ameaçador, o Sr. Borgin desapareceu no quarto dos fundos.
Harry esperou um pouco, caso ele voltasse, e, em seguida, o mais silenciosamente que pôde, saiu do armário, passou pelos mostruários de vidro e pela porta afora.
Harry olhou para os lados, segurando os óculos partidos. Saíra em uma ruela sombria que parecia totalmente ocupada por lojas que se dedicavam às Artes das Trevas. A que ele acabara de deixar, a Borgin & Burkes, parecia ser a maior, mas em frente havia uma grande coleção de cabeças jívaras[1] na vitrine, e duas portas abaixo, uma enorme gaiola pululava com gigantescas aranhas negras. Dois bruxos mal vestidos o observavam da sombra de um portal, cochichando entre si.

[1] Se você tiver mais de 16 anos, e quiser saber o que são cabeças jívaras, consulte o seguinte link: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jivaro

Apreensivo, Harry saiu caminhando, tentando segurar os óculos no lugar e esperando, sem muita esperança, conseguir encontrar uma saída daquele lugar.
Uma velha placa de madeira, pendurada acima de uma loja que vendia velas envenenadas, informava que ele se encontrava na Travessa do Tranco. Isto não adiantou muito, pois Harry nunca ouvira falar naquele lugar. Imaginou que talvez não tivesse falado com bastante clareza ao entrar na lareira dos Weasley porque tinha a boca cheia de cinzas. Pensou no que fazer, tentando ficar calmo.
— Não está perdido, está querido? — disse uma voz ao seu ouvido, assustando-o.
Uma bruxa idosa estava ao lado dele, segurando uma bandeja com objetos que se pareciam horrivelmente com unhas humanas. Ela riu dele mostrando dentes cobertos de limo.
Harry recuou.
— Estou bem, obrigado — disse — Só estou...
— HARRY! O que você está fazendo aqui?
O coração de Harry deu um salto. O da bruxa também: as unhas cascatearam por cima dos seus pés e ela começou a xingar ao mesmo tempo que a forma maciça de Hagrid, o guarda-caças de Hogwarts veio se aproximando em grandes passadas, seus olhinhos de besouros negros faiscando por cima da barba arrepiada.
— Hagrid! — exclamou Harry revelando alivio na voz rouca — Eu me perdi... Pó de Flu...
Hagrid agarrou Harry pela nuca e afastou-o da bruxa, derrubando a bandeja que ela levava. O guincho que ela soltou acompanhou-os durante todo o trajeto pelas ruelas tortuosas até tornarem a ver a luz do sol. Harry divisou a distância um edifício de mármore muito branco que já conhecia: o Banco de Gringotes.
Hagrid o levara direto ao Beco Diagonal.
— Você está horrível! — exclamou Hagrid, espanando a fuligem que cobria Harry com tanta força que quase o derrubou numa barrica de bosta de dragão à porta da farmácia — Se esquivando pela Travessa do Tranco, não sei, não, um lugar suspeito, Harry, não quero que ninguém o veja lá...
— Isso eu percebi — disse Harry, abaixando-se quando Hagrid fez menção de espaná-lo outra vez — Eu lhe falei, eu me perdi, que é que você estava fazendo lá?
— Eu estava procurando repelente para lesmas carnívoras — rosnou Hagrid — Elas estão acabando com os repolhos da escola. Você não está sozinho?
— Estou na casa dos Weasley, mas nos separamos — explicou Harry — Tenho que encontrá-los...
Os dois começaram a descer a rua juntos.
— Por que é que você nunca respondeu às cartas?— perguntou Hagrid a Harry enquanto caminhavam (o garoto tinha que dar três passos para cada passada das enormes botas de Hagrid).
Harry explicou tudo sobre Dobby e os Dursley.
— Trouxas nojentos — rosnou Hagrid — Se eu tivesse sabido...
— Harry! Harry! Aqui!
Harry ergueu os olhos e viu Hermione Granger parada no alto das escadas brancas de Gringotes. A garota desceu correndo ao encontro deles, os cabelos castanhos e fartos esvoaçando para trás.
— Que aconteceu com os seus óculos? Alô, Hagrid... ah, que maravilha rever vocês...
— Vai entrar no Gringotes, Harry?
— Assim que eu encontrar os Weasley — respondeu Harry.
— Você não vai ter que esperar muito — disse Hagrid com sorriso.
Harry e Hermione se viraram: correndo pela rua cheia de gente vinham Rony, Fred, Jorge, Percy e o Sr. Weasley.
— Harry — ofegou o Sr. Weasley — Tivemos esperança de que você só tivesse ultrapassado uma grade de lareira... — ele enxugou a careca reluzente — Molly está alucinada... aí vem ela.
— Onde foi que você saiu? — perguntou Rony.
— Na Travessa do Tranco — informou Hagrid de cara feia.
— Que ótimo!— exclamaram Fred e Jorge juntos.
— Nunca nos deixaram entrar lá — comentou Rony invejoso.
— Ainda bem — rosnou Hagrid.
A Sra. Weasley aproximava-se correndo, a bolsa balançando loucamente em uma das mãos, Gina agarrada à outra.
— Ah, Harry, ah, meu querido, você podia ter ido parar em qualquer lugar...
Tomando fôlego ela tirou uma grande escova de roupas da bolsa e começou a escovar a fuligem que Hagrid não conseguira espanar. O Sr. Weasley apanhou os óculos de Harry, deu-lhes uma batida com a varinha e os devolveu, como se fossem novos.
— Bom, tenho que ir andando — disse Hagrid, cuja mão era apertada pela Sra. Weasley (“Travessa do Tranco! Se você não o tivesse encontrado, Hagrid!”) — Vejo vocês em Hogwarts!
E o guarda-caças se afastou a passos largos, a cabeça e os ombros mais altos do que os de todo mundo na rua cheia.
— Adivinhem quem eu encontrei na Borgin & Burkes? — perguntou Harry a Rony e a Hermione enquanto subiam as escadas do Gringotes — Malfoy e o pai dele.
— Lúcio Malfoy comprou alguma coisa? — perguntou o Sr. Weasley sério logo atrás deles.
— Não, ele estava vendendo.
— Então está preocupado — comentou o Sr. Weasley com cruel satisfação — Ah, eu adoraria pegar Lúcio Malfoy por alguma coisa...
— Tenha cuidado, Arthur — disse a Sra. Weasley com severidade quando eram cumprimentados pelo duende à porta do banco — Aquela família significa confusão. Não abocanhe mais do que você pode mastigar.
— Então você não acha que sou adversário para o Lúcio Malfoy? — respondeu o Sr. Weasley indignado, mas foi distraído quase no mesmo instante pela visão dos pais de Hermione, que estavam parados nervosos no balcão que ia de uma ponta a outra do saguão de mármore, esperando que Hermione os apresentasse — Mas vocês são trouxas! — exclamou o Sr. Weasley encantado — Precisamos tomar um drinque! Que é que têm aí? Ah, estão trocando dinheiro de trouxas. Molly, olhe! — ele apontou excitado para as notas de dez libras na mão do Sr. Granger.
— Te encontro lá no fundo — disse Rony a Hermione quando os Weasley e Harry foram conduzidos aos cofres subterrâneos por outro duende de Gringotes.
Chegava-se aos cofres a bordo de vagonetes pilotados por duendes, que os manobravam em alta velocidade por trilhos de bitola estreita através dos túneis subterrâneos do banco.
Harry curtiu a viagem vertiginosa até o cofre dos Weasley, mas se sentiu muito mal, muito pior do que se sentira na Travessa do Tranco, quando eles o abriram. Havia uma pequena pilha de sicles de prata lá dentro e apenas um galeão de ouro. A Sra. Weasley tateou pelos cantos antes de varrer tudo para dentro da bolsa.
Harry se sentiu ainda pior quando chegaram ao seu cofre. Tentou bloquear a visão do conteúdo enquanto enfiava, apressadamente, mãos cheias de moedas em uma bolsa de couro.
De volta aos degraus de mármore, eles se separaram. Percy murmurou qualquer coisa sobre a necessidade de comprar uma pena nova. Fred e Jorge tinham visto um amigo de Hogwarts, Lino Jordan. A Sra. Weasley e Gina iam a uma loja de vestes de segunda mão. O Sr. Weasley insistia em levar os Granger ao Caldeirão Furado para tomar um drinque.
— Vamos nos encontrar na Floreios e Borrões dentro de uma hora para comprar o material escolar — disse a Sra. Weasley, se afastando com Gina — E nem pensar em entrar na Travessa do Tranco! — gritou ela para os gêmeos que seguiam na direção oposta.
Harry, Rony e Hermione caminharam pela rua tortuosa, calçada de pedras. A bolsa de ouro, prata e bronze que retinia alegremente no bolso de Harry estava pedindo para ser gasta, de modo que ele comprou três grandes sorvetes de morango e manteiga de amendoim, que os três lamberam felizes enquanto subiam o beco, examinando as vitrines fascinantes das lojas. Rony admirou, cobiçoso, um conjunto completo de vestes da grife Chudley Cannon, na vitrine daArtigos de Qualidade para Quadribol, até que Hermione puxou os dois para irem comprar tinta e pergaminho na loja ao lado.
Na Gambol & Japes, Jogos de Magia, eles encontraram Fred, Jorge e Lino Jordan, que estavam fazendo um estoque de Fogos de Artifício Dr. Filibusteiro, que disparavam molhados e, não aqueciam, e num brechó cheio de varinhas quebradas, balanças de latão empenadas e velhas capas manchadas de poções, os garotos deram de cara com Percy, profundamente absorto na leitura de um livro muito chato intitulado Monitores-Chefes que se tornaram Poderosos.
— Um estudo dos monitores-chefes de Hogwarts e suas carreiras — leu Rony alto na contra-capa — Parece fascinante...
— Dêem o fora — disse Percy com rispidez.
— E claro que ele é muito ambicioso, o Percy já planejou tudo... quer ser Ministro da Magia... — comentou Rony para Harry e Hermione em voz baixa quando deixaram o irmão sozinho.
Uma hora depois eles rumaram para a Floreios e Borrões. Não eram de maneira alguma os únicos que se dirigiam à livraria. Ao se aproximarem, viram, para sua surpresa, uma quantidade de gente que se acotovelava à porta da loja, tentando entrar. A razão disso estava anunciada em uma grande faixa estendida nas janelas do primeiro andar.

GILDEROY LOCKHART
Autografa sua autobiografia
“O MEU EU MÁGICO”
Hoje das 12:30h às 16:30h

— Vamos poder conhecê-lo! — gritou Hermione esganiçada — Quero dizer, ele é o autor de quase toda a nossa lista de livros!
A aglomeração parecia ser formada, em sua maioria, por bruxas mais ou menos da idade da Sra. Weasley. Um bruxo de ar atarantado estava postado à porta, dizendo:
— Calma, por favor, minhas senhoras... não empurrem, isso... cuidado com os livros, agora...
Harry, Rony e Hermione espremeram-se para entrar na loja. Uma longa fila serpeava até o fundo da loja, onde Gilderoy Lockhart autografava seus livros. Cada um dos meninos apanhou um exemplar de O Livro Padrão de Feitiços, 2ª Série, e se enfiaram sorrateiros no inicio da fila onde já aguardavam os outros meninos com o Sr. e a Sra. Weasley.
— Ah, chegaram, que bom! — disse a Sra. Weasley. Ela parecia ofegante e não parava de ajeitar os cabelos — Vamos vê-lo em um minuto...
Aos poucos Gilderoy Lockhart se tornou visível, sentado a uma mesa, cercado de grandes cartazes com o próprio rosto, todos piscando e exibindo dentes ofuscantes de tão brancos.
O verdadeiro Lockhart estava usando vestes azul-miosótis que combinavam à perfeição com os seus olhos; seu chapéu cônico de bruxo se encaixava em um ângulo pimpão sobre os cabelos ondulados. Um homenzinho irritadiço dançava à sua volta, tirando fotos com uma máquina enorme que soltava baforadas de fumaça púrpura a cada flash enceguecedor.
— Saia do caminho, você aí — rosnou ele para Rony, recuando para se posicionar em um ângulo melhor — Trabalho para o Profeta Diário.
— Grande coisa! — disse Rony, esfregando o pé que o fotógrafo pisara.
Gilderoy ouviu-o. Ergueu os olhos. Viu Rony... e em seguida viu Harry Potter. Encarou-o. Então se levantou de um salto e decididamente gritou:
— Não pode ser, Harry Potter!
A multidão se dividiu, murmurando agitada. Lockhart adiantou-se, agarrou o braço de Harry e puxou-o para frente. A multidão prorrompeu em aplausos. A cara de Harry estava em fogo quando Lockhart apertou sua mão para o fotógrafo, que batia fotos feito louco, dispersando fumaça sobre os Weasley.
— Dê um belo sorriso, Harry — disse Lockhart por entre os dentes faiscantes — Juntos, você e eu valemos uma primeira página.
Quando ele finalmente soltou a mão de Harry, o garoto não conseguia sentir os dedos. E tentou se esgueirar para junto dos Weasley, mas Lockhart passou um braço pelos seus ombros e segurou-o com firmeza ao seu lado.
— Minhas senhoras e meus senhores — disse em voz alta, ao mesmo tempo que pedia silêncio com um gesto — Que momento extraordinário este! O momento perfeito para anunciar uma novidade que estou guardando só para mim há algum tempo! Quando o jovem Harry entrou na Floreios e Borrões hoje, só queria apenas comprar a minha autobiografia, com a qual eu terei o prazer de presenteá-lo agora.
A multidão tornou a aplaudir.
— Ele não fazia idéia — continuou Lockhart, dando uma sacudidela em Harry que fez os óculos do menino escorregarem para a ponta do nariz — Que em breve estaria recebendo muito, muito mais do que o meu livro O Meu Eu Mágico. Ele e seus colegas irão receber o meu eu mágico em carne e osso. Sim, senhoras e senhores, tenho o grande prazer de anunciar que, em Setembro próximo, irei assumir a função de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts!
A multidão deu vivas e bateu palmas, e Harry se viu presenteado com as obras completas de Gilderoy Lockhart. Cambaleando sob o peso dos livros, ele conseguiu fugir das luzes da ribalta para a periferia do salão, onde Gina estava parada com o seu novo caldeirão.
— Fique com eles — murmurou Harry para a menina, virando os livros no caldeirão — Eu vou comprar os meus...
— Aposto que você adorou isso, não foi, Potter? — disse uma voz que Harry não teve problema em reconhecer.
Ele endireitou o corpo e se viu cara a cara com Draco Malfoy, que exibia o sorriso de desdém de sempre.
— O Famoso Harry Potter — continuou Malfoy — Não consegue nem ir a uma livraria sem parar na primeira página do jornal.
— Deixe ele em paz, ele nem queria isso — disse Gina.
Era a primeira vez que falava na frente de Harry. E olhava feio para Malfoy.
— Potter, você arranjou uma namorada! — disse Malfoy arrastando as sílabas.
Gina ficou escarlate enquanto Rony e Hermione lutavam para chegar até eles, sobraçando pilhas de livros de Lockhart.
— Ah, é você — exclamou Rony, olhando para Malfoy como se ele fosse uma coisa desagradável, grudada na sola do sapato — Aposto como ficou surpreso de ver Harry aqui, hein?
— Não tão surpreso como estou de ver você numa loja, Weasley — retrucou Malfoy — Imagino que seus pais vão passar fome um mês para pagar todas essas compras.
Rony ficou tão vermelho quanto Gina. Largou os livros no caldeirão, também, e partiu para cima de Malfoy, mas Harry e Hermione o agarraram pelo casaco.
— Rony! — chamou o Sr. Weasley, que procurava se aproximar com Fred e Jorge — Que é que está fazendo? Está muito cheio aqui, vamos para fora.
— Ora, ora, ora, Arthur Weasley.
Era o Sr. Malfoy. Estava parado com a mão no ombro de Draco, com um sorriso de desdém igual ao do filho.
— Lúcio — disse o Sr. Weasley, dando um frio aceno com a cabeça.
— Muito trabalho no Ministério, ouvi dizer — falou o Sr. Malfoy — Todas aquelas blitz... Espero que estejam lhe pagando hora extra!
Ele meteu a mão no caldeirão de Gina e tirou, do meio dos livros de capa lustrosa de Lockhart, um exemplar muito antigo e surrado de um Guia sobre Transfiguração para Principiante.
— É óbvio que não — concluiu o Sr. Malfoy — Ora veja, de que serve ser uma vergonha de bruxo se nem ao menos lhe pagam bem para isso?
O Sr. Weasley corou com mais intensidade do que Rony e Gina.
— Nós temos idéias muito diferentes do que é ser uma vergonha de bruxo, Malfoy.
— Visivelmente — disse o Sr. Malfoy, seus olhos claros desviando-se para o Sr. e Sra. Granger, que observavam apreensivos — As pessoas com quem você anda, Weasley... e pensei que sua família já tinha batido no fundo do poço...
Ouviu-se uma pancada metálica quando o caldeirão de Gina saiu voando; o Sr. Weasley se atirara sobre o Sr. Malfoy, derrubando-o contra uma prateleira. Dúzias de livros de soletração despencaram com estrondo em sua cabeça; ouviu-se um grito “Pega ele, papai”, dado por Fred e Jorge; a Sra. Weasley gritava “Não, Arthur, não”; a multidão estourou, recuando e derrubando mais prateleiras.
— Senhores, por favor, por favor! — pedia o assistente, e, depois, mais alto que a algazarra reinante — Vamos parar com isso, cavalheiros, vamos parar com isso...
Hagrid caminhava em direção aos dois atravessando um mar de livros. Num instante ele separou o Sr. Weasley e o Sr. Malfoy. O Sr. Weasley com o lábio cortado e o Sr. Malfoy fora atingido no olho por uma Enciclopédia dos Sapos. Ele ainda segurava o livro velho de Gina sobre transfiguração. Atirou-o nela, os olhos brilhando de malícia.
— Aqui, tome o seu livro, é o melhor que seu pai pode lhe dar...
E, desvencilhando-se da mão de Hagrid, chamou Draco e saíram da loja.
— Você devia ter fingido que ele não existia, Arthur — disse Hagrid, quase erguendo o Sr. Weasley do chão enquanto este endireitava as vestes — Podre até a alma, a família toda, todo mundo sabe disso. Não vale a pena dar ouvidos a nenhum Malfoy. Sangue ruim, é o que é. Vamos agora, vamos sair daqui.
O assistente parecia querer impedi-los de sair, mas mal chegava à cintura de Hagrid e pareceu pensar duas vezes. Eles subiram apressados a rua, os Granger tremendo de susto e a Sra. Weasley fora de si de fúria.
— Um belo exemplo para os seus filhos... saindo no tapa em público... que é que o Gilderoy Lockhart deve ter pensado...
— Ele estava satisfeito — informou Fred — Você não ouviu o que ele disse quando estávamos saindo? Perguntou àquele cara do Profeta Diário se ele podia incluir a briga na notícia, disse que tudo era publicidade.
Mas foi um grupo mais sereno que voltou à lareira do Caldeirão Furado, de onde Harry, os Weasley e todas as compras iriam retornar à Toca, usando o Pó de Flu. Eles se despediram dos Granger, que iriam atravessar o bar para chegar à rua dos trouxas, do outro lado; o Sr. Weasley começou a perguntar ao casal como funcionavam os pontos de ônibus, mas parou de repente ao ver o olhar da Sra. Weasley.
Harry tirou os óculos e guardou-os bem seguros no bolso antes de se servir do Pó de Flu. Decididamente não era o seu meio de transporte favorito.